É O AMOOOOOR


Todo o dia ela faz tudo sempre igual

Quinta-feira, doze de fevereiro de dois mil e quatro.

A rotina, sempre a rotina.

Ela sempre detestou rotina. Simplesmente porque era tudo muito igual, sempre igual. Acorda, espreguiça, liga o rádio, toma o café da manhã (que também era sempre o mesmo: granola de coco com leite e suco de maracujá light), escova os dentes no chuveiro, seca o cabelo, escolhe a roupa, pega a bolsa, sai, tranca a porta. Elevador que demora a chegar e que desce parando em outros andares, só para atrasá-la mais. Caminha duas quadras, vira à esquerda na rua do metrô, vira à direita e passa pela frente do shopping. Espera e espera o sinal abrir. Aí, corre, porque tem que atravessar 4 vias, tendo o conforto da vista da Baía de Botafogo, com o sol alto, céu azul (quase sempre) e embarcações salpicando o azul do mar. Espera e espera a van. Pergunta se passa no lugar tal, ouve que sim. Entra. Aperta daqui, se encolhe dali e senta. Fica puta da vida porque o motorista está escutando rádio evangélica e ela pelo seu medo constante de assalto na Cidade Maravilhosa, não levou o disc-man. Pega seu livro e começa a ler. Van pára, entra gente. Van sai. Van pára, sai gente. Van sai. Até que ela chega ao seu destino. Pega o vale-transporte na bolsa, paga, aperta daqui, aperta dali e consegue sair.

Caminha alguns quarterões de dentro do próprio shopping, onde fica o escritório. Olha de passagem para as vitrines coloridas e apetitosas. Lembra que não pode gastar mais dinheiro. Fica triste e segue caminhando. Chega no prédio do escritório e, preguiçosa, espera o elevador para subir só um andar. Olha-se no espelho do elevador, passa o gloss nos lábios, verifica que as olheiras continuam profundas, arruma o cabelo e sai. Pega o crachá, passa no leitor magnético até ouvir o “clact” característico da porta que se destrancou. “Bom dia”. Passa o crachá pelo outro leitor magnético que registra o horário de chegada. Percebe que está 2 minutos atrasada, mas tudo bem, porque ela não tem nada pra fazer, nem ninguém que a espera, à noite, em casa, então sabe que pode ficar mais dois minutos no final do expediente, para compensar. Mais “bons dias”. Tira o casaco, pendura nas costas da cadeira, pendura a bolsa no seu ganchinho legal. Liga o computador, coloca a senha e espera. Computador ligado, começa o trabalho, as digitações de relatórios, os telefonemas, os e-mails de pessoas do seu local de trabalho.

Meio-dia. Passa o crachá. Sai, escolhe um restaurante por perto, onde alguns colegas também almoçam. Senta, escolhe, pede, bebe coca-cola e acende um cigarro até chegar seu pedido. Olha bem pro prato e, caso não encontre nenhum cabelo, come. Paga, sai do restaurante e caminha até a cafeteria. Pede um expresso com os colegas. Sorve o café com mais um cigarro. Paga e volta caminhando. Apaga o cigarro e sobe até o escritório. Passa o crachá, ouve o “clact”, entra, “boa tarde”, passa o crachá no outro leitor magnético, senta, pega a necessaire, vai ao banheiro, escova os dentes que estão ficando cada vez mais amarelados por causa da nicotina, avalia o estado das olheiras, prende o cabelo e sai do banheiro. Senta na sua mesa e passa a tarde com mais telefonemas, e-mails, contratos, relatórios e um cigarrinho pra descontrair.



 Escrito por Sra Guimarães às 15h41
[   ] [ envie esta mensagem ]




continuando...

Sete horas, meia hora de hora extra, pergunta se alguém vai para a Zona Sul, porque odeia voltar sozinha, de van, à noite para casa. Descobre que eles vão demorar mais, “até umas 9 e meia”. Chama seu colega para beber um chopp até o horário em que os outros voltarão com ela, de van. Passa o crachá. Sai, caminha até o bar falando amenidades, reclamando do trabalho, das sacanages que acontecem por lá, choramingando um amor perdido. Ouve que o tal amor perdido é que não a merecia, que ela não deve ficar assim, que deve encontrar um outro alguém. Chega no bar, pede “um chopp sem colarinho, por favor”. Brinda à paz mundial, ao Inter, “a nós, a quem gosta de nós e o resto que se foda!”. Bebe uns quatro chopps, come alguma porcaria, paga, se despede do colega, encontra com os companheiros de viagem.

Caminha até a van, cansada e melancólica. Pega a van, aperta daqui, espreme dali e consegue sentar perto dos amigos. Não sente vontade de conversar. Volta olhando para o mar, para a beleza desta cidade que escolheu para viver pra sempre. Pensa na família, reza para que tudo esteja bem com a mãe, com o pai, com a irmã e com a cachorrinha, que moram tão longe. Lembra do amor perdido e permite que seus olhos marejem por alguns segundos. Van pára, gente entra. Van sai. Van pára, gente sai. Chega perto do shopping center, outra vez. Aperta daqui e dali, pega o vale-transporte, paga, sai, “boa noite”.

Desce da van, olha por alguns segundos a Baía de Botafogo, mais linda ainda do que pela manhã, com as luzes do Pão de Açúcar refletidas, as embarcações boiando com uma serenidade relaxante. Lembra de onde está, do horário, dos perigos e acende outro cigarro. Atravessa 3 vias, correndo, passa por dentro do shopping. Na saída, pega o telefone, faz uma chamada a cobrar para casa de sua família, fala com a mãe. Coração aperta de saudade, mas não quer deixar a mãe preocupada, engole o choro, conversa enquanto caminha, rapidamente, até chegar ao portão de casa. Despede-se da mãe, porque já são 10:30 da noite. O porteiro abre o portão. “Boa noite”. Fecha o portão. Caminha até o elevador, espera e espera. Sobe e procura as suas chaves. Caminha até sua porta, destranca, percebe que a faxineira passou por lá e deixou tudo brilhando e cheirando a limpeza.

Secretária eletrônica que pisca um zero, indicando nenhum recado, ninguém ligou, ou, pelo menos, ninguém quis falar com a tal máquina. Tira o relógio e os sapatos, larga a bolsa no sofá, liga a televisão no quarto. Vai até a cozinha, liga o gás, pega uma cerveja gelada, vai até o banheiro, toma um banho e bebe sua cerveja. Sai, desliga o gás, penteia o cabelo e termina a cerveja, ainda enrolada na toalha, vendo televisão. Desliga a televisão porque o videocassete está programado a gravar o seu programa preferido e, assim, ela terá alguma coisa pra ver, no final de semana, sem precisar gastar dinheiro na locadora. Vai até a varando, olha pro Cristo Redentor, iluminado, imponente, lindo. Logo abaixo, vê o morro e a favela. Vai até a cozinha, pega a última cerveja do dia, acende o último cigarro do dia, deita na rede, olhando para as luzes da cidade, imaginando o que as pessoas estão vendo nas suas televisões, se elas tiveram um dia cansativo, se estão felizes, entediadas, tristes, brigando ou fazendo amor. Lê mais um pouco do seu livro, deitada na sua rede, bebendo sua cerveja e fumando.

Apaga o cigarro, levanta da rede, joga a garrafinha long neck, vazia, no lixo. Coloca o livro na bolsa para não esquecer de levá-lo, no dia seguinte. Acende um incenso para tirar o cheiro de cigarro. Vai até o banheiro, passa o creme para olheiras, toma a sua pílula anticoncepcional pensando, como sempre, no porquê de ainda não ter parado de ingerir este monte de hormônios se já não tem mais um amor, se não tem vontade de conhecer ninguém, se não vai transar nunca mais, pro resto da vida. Escova os dentes, penteia o cabelo, apaga a luz e sai do banheiro. Liga a TV, diminui bastante o volume, programa o timer para que a TV se desligue dali a 30 minutos. Desliga a luz. Deita, assiste um pouco de TV até adormecer. No outro dia, tudo se repetiria mesmo.



 Escrito por Sra Guimarães às 15h40
[   ] [ envie esta mensagem ]




Sexta-feira, treze de fevereiro de dois mil e quatro.

 

A rotina, sempre a rotina.

Tudo se repetira, como vem acontecendo nos últimos meses. Ela acorda cansada e segue o seu dia, exatamente da mesma forma que o dia anterior. Tudo igualzinho. Até que, às sete horas da noite, sua vida muda. Incrivelmente. Dali pra frente nada mais seria daquele jeito, tão igual, tão rotineiro.

Naquele mesmo bar do dia anterior, com o mesmo colega, conversando sobre as mesmas amenidades, uma interrupção abrupta, uma peça que o destino pregou logo nela, que era a mais descrente.

Engraçado como uma sexta-feira treze, quente e ensolarada, pôde surpreendê-la tanto, trazendo pra perto alguém que era exatamente o alguém de quem ela tanto precisava. Sem tirar nem pôr. Uma pessoa linda, que, ao mesmo tempo em que a fazia se apaixonar, também se apaixonava. Chopp, coca-cola, petiscos e conversa. E conversa e conversa. Conta, ri, ouve, fica triste, fica feliz, coração bate forte. Vai ao banheiro imaginando se ele a segue com o olhar. Volta, senta, prende o cabelo, conversa mais. Solta o cabelo.

Enquanto a noite chegava e as estrelas começavam a sair, ela sentia que todas as luzes daquele mesmo bar estavam diferentes, mais brilhantes. Olha nos olhos, conversa mais. Fala da infância, da carreira, das viagens, daquele filme que ela ama e, coincidentemente, também é o filme preferido dele. “Mas a trilha sonora, então, é fantástica, né?”. “E o meu apelido, quando pequena, que era fofolete. Fofolete! Hahahaha!”. Fala dos pais, do seu relacionamento com eles, das irmãs. Ouve a versão dele. Falam de pintura, de livros, de pessoas em comum. Pede desculpas, porque percebeu que ele não fuma, mas ela queria tanto fumar um cigarro. Ele diz que não há problemas, que a fumaça não incomoda. Ela gesticula com as mãos e ele observa. Ela entrega um cartão com seu nome, seu e-mail e seu telefone. Antes de entregar, ela anota o telefone celular na parte de trás do cartão. Ele pega o cartão, com os olhos brilhando, agradece, mas não esboça nenhuma outra reação. Também não retribui o gesto e ela se decepciona por não ter o telefone dele. Falam sobre os amores, sobre as decepções, sobre as tristezas e sobre a solidão, que assombrava a vida de ambos. Falam da saudade. Mais chopp, mais coca-cola e mais cigarros. São 3:30 da madrugada. “O restaurante vai fechar”, avisa o garçon.

Ela ri, acompanhada pela risada dele e fala que é a primeira vez que ela é expulsa daquele restaurante. Mas ressalta que era só daquele restaurante que estava se referindo, porque, estando em uma conversa agradável, já fechou outros diversos restaurantes da Zona Sul, onde ela mora. Ele diz que mora em uma cidade vizinha, que fica a uns quarenta minutos dali. Ela se espanta e pergunta se ele faz este trajeto todos os dias, “porque é estrada pra caramba”. Ele diz que sim, mas que já estava pensando em alugar um apartamento mais perto do trabalho. Ela fica preocupada porque ele vai voltar pela estrada escura, sozinho, tão tarde, “não é melhor irmos andando, então? Preciso pegar um táxi, mesmo”. Ele diz “imagina” e faz questão de levá-la em casa. Ela faz charme, diz que não precisa, mas ele, cavalheiro, insiste. Ela caminha até o carro dele, pensando no quê pensar daquilo tudo. Mas com os pés no chão, porque dessa vez ela não iria se iludir. Chegam no carro, entram e vão conversando mais e apreciando a vista da lua, refletida no mar. Decidem parar na praia e beber uma água de coco antes de seguirem para suas casas. Duas águas de coco para cada um, o relógio digital da praia marcando 5:40. Eles estão exaustos, mas nem percebem.

Ela falou tanto, por tanto tempo, que está rouca. Ele dirige até o prédio onde ela mora. Despedem-se com três comportados beijinhos e um abraço. “Obrigada pela noite. Foi muito agradável. Volta com cuidado, hein. Tchau”. Espera o porteiro abrir o portão, entra, “bom dia”, caminha até o elevador com o coração ainda batendo forte, sem entender o motivo. Espera e espera o elevador. Sobe, procura as chaves, caminha até a porta, destranca e entra em casa. O sol começa a nascer por trás do Cristo, fazendo da porta de vidro da varanda, uma tela alaranjada de tirar o fôlego.

Ela tira o relógio e os sapatos, larga a bolsa no sofá. Vai até a cozinha, serve-se de suco de maracujá light, senta no chão da varanda, fica olhando o dia que nasce. Acende o último cigarro e, enquanto fuma, relembra cada detalhe da noite anterior, cada parte do rosto dele, de como ele segurou a sua mão, sempre cavalheiro, para atravessar a rua. lembrou do brilho dos olhos dele e se perguntou porque é que, logo da primeira vez que olhou para ele, chegando no bar para encontrar o seu amigo, ela se imaginou casando com ele. Assim, sem mais nem menos, a imagem deles casados veio à sua mente. “Que loucura! Sou mesmo louca ou boba demais para pensar assim, como se fosse uma virgem dos anos 40!”. Riu de si mesma. Lembrou que mal falara com a mãe, na noite anterior, pelo telefone celular, enquanto ele havia ido ao banheiro. Lembrou que não lembrou nenhuma vez do amor perdido que tanto a incomodava, até o dia anterior. Apagou o cigarro, o dia já estava claro e azul. As pessoas já saíam para correr, malhar, comprar pão ou jornal.

 Ela levou o copo até a pia da cozinha, encheu-o de água, ligou o gás e foi ao banheiro. Tomou um bom banho, desligou o gás, penteou o cabelo, passou o creme para olheiras, colocou um camisetão roxo, macio e confortável para dormir. Deitou-se e nem precisou ligar a TV. Já adormecia quando o celular apitou, indicando que ela recebera uma mensagem de texto. Com um sorriso, ela leu “Bom dia, fofolete! Comi baguete quente enquanto o sol nascia ;)”. Deixando o telefone ao alcance da mão, ela fechou os olhos e dormiu. Calma, em paz, como há muito tempo não dormia. A partir dali, nada mais foi igual ou rotineiro e, por todos os outros dias que se seguiram, ela teria sempre um bom motivo para levantar de manhã, para sorrir, para trabalhar melhor, para não fazer hora extra e, principalmente, para deitar, à noite, no ombro dele.



 Escrito por Sra Guimarães às 15h39
[   ] [ envie esta mensagem ]




Bom, esse é um blog diferente. Feito para uma pessoa, em especial.

Onde eu posso publicar o que eu quiser, só porque eu amo essa pessoa.

ANDRÉ, É O AMOOOOOOOOR, MESMO, NÉ? O amor que nos deixa assim, fazendo declarações piegas sem vergonha de ser feliz.

Te amo, meu anjo.



 Escrito por Carolina Guimarães às 11h19
[   ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]




Este blog foi feito para a pessoa mais importante da minha vida, meu marido e grande amor, André.

Aqui estarão escritos alguns textos e declarações de amor, dedicadas única e exclusivamente a ele. Mas, quem quiser ler, pode entrar, sentar e ficar a vontade.


 
Histórico
  01/08/2004 a 31/08/2004


Outros sites
  UOL
  UOL SITES
Votação
  Dê uma nota para meu blog